O Corpo Parado Grita: Por Que Precisamos Nos Mexer Antes Que Seja Tarde

Fernando Vargas

Por Eliane Gonçalves BRA

Vivemos tempos em que o Ser Humano se move cada vez menos. A hipocinesia não é apenas a redução da atividade física, mas é algo mais profundo: estamos estagnando, física e emocionalmente. A tecnologia, o tempo de tela, a urbanização desordenada e os modelos de trabalho, como o home office, que a cada dia nos faz mais sedentários, nos transformaram em uma sociedade que assiste à própria vitalidade se apagar lentamente sem perceber.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já nos alertou, em 2020, que mais de 80% dos adolescentes no mundo não fazem atividade física suficiente, e que 1 em cada 4 adultos está fisicamente inativo. Muitos países da América Latina lideram o quantitativo de indivíduos sedentários, pois o mundo que vivemos, glorifica a produtividade e a velocidade. Ironicamente estamos parando, e esse movimento de parar está nos levanto a uma morte lenta e antecipada.

O sedentarismo é hoje uma das principais causas de morte evitável no planeta. De acordo com a própria OMS, a inatividade física é responsável por mais de 5 milhões de mortes por ano no mundo. Isso supera, por exemplo, o número de mortes relacionadas ao tabagismo em muitos países. E, no entanto, seguimos negligenciando o nosso corpo, a nossa vida. Afinal, o que significa não se mover?

Significa permitir que o coração enfraqueça, que os músculos percam força, que a mente se torne mais vulnerável à ansiedade e à depressão. Significa aceitar que doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e certos tipos de câncer sejam cada vez mais comuns, e como estamos vendo as doenças cada vez mais precoces, sendo assim, a ausência do movimento é a presença de um convite silencioso a inúmeras doenças.

Segundo o relatório “Global Status Report on Physical Activity 2022” da OMS, a inatividade física está custando aos sistemas de saúde globalmente cerca de 27 bilhões de dólares por ano. E mais do que o custo financeiro, há o custo humano: milhões de vidas perdidas ou vividas com qualidade reduzida. Vale ressaltar que a cada dólar gasto com saúde, com a doença são gastos 3 dólares, afinal é mais barato ter saúde.

Movimentar-se não é um luxo. Não é algo que fazemos “se sobrar tempo”. É uma necessidade vital, uma questão de saúde pública, uma responsabilidade individual, e coletiva. Não se trata apenas fazer muito, de frequentar uma academia, ou correr maratonas. Trata-se de cultivar uma vida ativa: caminhar mais (padaria supermercado, andar com o animal de estimação), dançar, subir escadas, brincar com crianças, cuidar do corpo com o mesmo zelo com que cuidamos do nosso celular, da nossa casa, das nossas roupas, afinal nosso corpo é nossa principal morada.

A UNESCO, em seu documento “Fit for Life” (2021), reforça que o esporte e a atividade física são ferramentas essenciais para promover saúde, bem-estar, educação e coesão social. Segundo o relatório, o esporte é um direito humano fundamental e deve estar acessível a todos, independentemente de idade, gênero, raça, ou condição social. O corpo precisa reaprender a sentir o mundo, a sair da apatia imposta pela hiperconexão digital e a reconectar-se consigo mesmo, e nada melhor que o movimento para isso.

Mexer-se é também um ato de resistência, e resiliência. Em tempos de exaustão mental, mudança alimentar, desigualdade social e violência urbana, manter o corpo em movimento é uma maneira de afirmar que ainda estamos vivos. Que resistimos. Que lutamos por saúde, autonomia, e dignidade.

Não à toa, programas de esporte comunitário, e de incentivo à atividade física têm apresentado resultados expressivos na prevenção da violência, na redução da evasão escolar, e na melhoria da saúde mental em populações vulneráveis. Isso nos mostra que o movimento salva pode fazer toda a diferença na vida do indivíduo.

Quando falamos em movimento, falamos também de políticas públicas na área da saúde, do lazer, transporte. A OMS recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada para adultos, e idosos, e pelo menos 60 minutos diários para crianças e adolescentes. Mas como cobrar isso de populações que vivem em bairros sem infra-estrutura, sem praças, sem segurança? Como exigir isso de pessoas que mal têm tempo para viver em sua essência?

É preciso olhar para o corpo com responsabilidade social. Garantir espaços públicos seguros, investir em Educação Física nas escolas, valorizar profissionais da área da saúde, e do esporte, integrar políticas públicas com propostas de mobilidade ativa, como o que norteia o programa Be Active da OMS. Caminhar deve ser um direito. Brincar deve ser protegido, e mantido. Correr deve ser possível, onde quer que estejamos.

Mexer-se é reconectar com a própria biologia. Nossos corpos foram feitos para se movimentar. A cada passo, a circulação sanguínea melhora. A cada alongamento, os músculos se renovam. A cada respiração profunda durante uma caminhada, a mente clareia. O corpo agradece. A saúde floresce. A alma respira. E com isso, vivemos mais, e melhor.

A ciência é clara. Os benefícios do movimento vão muito além do físico, pois atinge a saúde mental e social. A prática regular da atividade física está diretamente ligada à melhora da autoestima, à redução dos sintomas de depressão, ao aumento da criatividade e até a melhora da memória. Mover o corpo é ativar a vida em todas as suas dimensões.

A questão que fica é simples e profunda: por que estamos parando tanto, se sabemos que isso nos faz mal?

Se o mundo não pode parar, nossos corpos, menos ainda. Mover-se é dizer sim à vida. É desafiar a morte silenciosa do sedentarismo, da obesidade. É cuidar do presente, e preparar um futuro melhor, mais saudável, mais humano em sua essência.

Que esta coluna sirva como um convite à reflexão e à ação. Que possamos fazer das calçadas palcos de saúde, das praças espaços de reencontro, dos nossos corpos moradas vivas do bem-estar. Porque, no fim das contas, o corpo que se movimenta, é o corpo que ainda tem esperança de um futuro melhor.

Referências:

Guthold R. et al. Worldwide trends in insufficient physical activity from 2001 to 2016: a pooled analysis of 358 population-based surveys. The Lancet Global Health, 2018.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Global Status Report on Physical Activity 2022. Disponível em: https://www.who.int

Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on physical activity and sedentary behaviour. 2020.

The Lancet Physical Activity Series, 2012.

UNESCO. Fit for Life: Leveraging sport for more inclusive, resilient and peaceful societies. Paris, 2021.

PhD. Eliane Cunha Gonçalves BRA

Pós-Doutora em Ciência da Motricidade Humana, Doutora em Ciência da Motricidade Humana, Mestre em Ciência da Motricidade Humana no Brasil, Licenciatura Plena em Educação Física; Especialista em Políticas Públicas Sociais e da Saúde; Especialista em Treinamento Desportivo Especialista em Educação Física e Sociedade, Curso de Extensão em Gestão Publica em Educação Fisica e Desporto, Docente em Cursos de Graduação e Pós-Graduação, Ministra palestra e cursos na América Latina, Autora de inúmeros artigos, Autora de livros e capítulos de livro, Presidente e Membro de Inúmeras Comissões  Científicas. Produtora de assuntos futebolísticos em blog, Facebook e YouTube (Cantinho do Laranjal).

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